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Blocos coloridos
  • Foto do escritorRenan Magoo

MEU PAI ROUBOU UM TREM

Atualizado: 7 de mar.




“Corri atrás do trem e dondocas me seguiam dançando rococó de La plainte. Roubei suas ceroulas indianas de rendas com detalhes frivolité, empinei cavalos à vapor e rebolei segurando um cachorro.” - Jesse James.


Não é de hoje que se roubam trens. Desde quando inventaram o primeiro trem, logo em seguida roubaram esse trem só para ter o gostinho de roubar algo novo no mercado. Isso se chama oportunidade de mercado, ou como diria meu avô: “Tira esses fiapos de milho da orelha tio orelha!”. Bons tempos...


Certo dia meu pai estava em casa sem fazer nada e ele pensou: “Por que não roubar um trem?”. Era uma grande ideia. Além de ousado e muito arriscado.

Se fosse eu roubaria um pedaço de papelão do mendigo. Não é nada ousado, também não curto muito a adrenalina de ser procurado pela polícia. Mas mesmo assim correria o risco do cachorro do mendigo me morder.


Meu pai saiu de casa determinado. Foi até a primeira estação de trem que encontrou, entrou na estação, esperou o trem chegar, depois entrou no trem e esperou o momento certo para anunciar o assalto ao trem.


Cinco estações passaram e ele já estava no Tatuapé para anunciar o grande roubo. Mas ele resolveu esperar...


Mais cinco estações passaram e ele chegou até a Sé. Mas ele resolveu esperar o momento certo...


Mais cinco estações e chegou até a Barra Funda. Era hora de anunciar o assalto, mas ele resolveu esperar...


Mais oito estações se passaram e ele já estava em Perus. Talvez aqui seja o lugar ideal para fazer o assalto, pensou ele.


Mais oito estações adiante e chegou em Jundiaí. Era a última estação, agora não pode escapar. Mas ele resolveu esperar...


Mais cinquenta e duas estações passaram e meu pai já estava em Belo Horizonte, na estação de Barreiro. Já cansado, com fome e exausto, ele procurava o momento certo para anunciar o maior assalto ao trem da história!


Mais quatro estações passaram e ele chegou em Salgado Filho. Talvez esse seja o local ideal para o roubo...

Enquanto meu pai tentava decidir qual a estação certa para cometer o crime, passaram-se mais cinco estações e já estava em Barnacena.


Com sono, meu pai deu um cochilo e quando abriu os olhos já estava na Pampulha. “Não vou anunciar o assalto aqui. Vou voltar para o centro que é o melhor ponto”. Pensou meu pai enquanto planejava o crime perfeito.


Passaram-se mais quatorze estações e ele chegou até José Cândido da Silveira. “Não gostei desse nome, José Cândido da Silveira, vou esperar até a próxima estação...”, disse meu pai...


Depois de seis estações, ele chegou na última que era Vilarinho e pensou: “Melhor ir mais adiante...”


Depois de cento e oitenta dias, meu pai chegou até a estação de Nagatacho que fica em Tóquio no Japão. Naquela altura meu pai estava completamente irreconhecível. Com barba grande, cabelos grisalhos, boca ressecada, unhas pretas, sem sapatos e segurando um cachorro chamado Orteguito que ele resgatou na Estación Faro Murillo na Bolívia há noventa dias. E mesmo parecendo um mendigo, com fome, com sede, sem tomar banho por vários meses, ele ainda estava determinado e focado no seu objetivo que era... Que era... Bom, nessa altura do campeonato meu pai nem sabia mais o que estava fazendo ali. Na verdade ele nem sabia mais quem era ele.


E foi assim que meu pai nunca mais voltou para a casa.

A maioria das pessoas tem aquela história triste de que o pai saiu para comprar cigarro e não voltou mais. No meu caso quando eu conto que meu pai saiu de casa para roubar um trem ninguém acredita. Todos tiram sarro. Mas um dia vão anunciar no jornal e em todos os programas de televisão que meu pai roubou um trem. Será o maior roubo da história e meu pai será uma lenda!


Mas, enquanto isso, vamos esperar pela próxima estação... Pode ser que meu pai finalmente anuncie o assalto.

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