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Blocos coloridos
  • Foto do escritorRenan Magoo

SE VOAR, CHAME O FRANZ


“Estava nas ruas de Paris comendo um pão francês, onde lá eles chamam só de pão, e pensei: Por que não voar?”. Franz Reichelt 1878-1912


Certo dia criei o ioiô. Usei pêlos do sovaco da tia Anne e duas esferas achatadas de madeira. Enrolei os pêlos nas esferas e soltei. O ioiô foi parar na cabeça de uma menina que passava na rua e ela morreu de traumatismo craniano.


Outro dia inventei o canhão. Usei 2 toneladas de pólvora e uma canoa. Acendi um fósforo e joguei... 200 pessoas morreram naquele dia, pelos menos ganhei desconto da funerária.


Na primavera inventei o relógio de pulso. Quando fui ajustar a hora, o ponteiro voou e furou o pulmão do meu pai. Ele morreu naquele dia, pelo menos não foi de cigarro.


Dia 14 de agosto, inventei o carro à vapor. Fui dar um role, o carro perdeu o controle, pegou fogo e acabei acertando uma fábrica de fogos de artifício. O fogo se espalhou pela floresta desmatando mais de 100 mil quilômetros de mata. Pelo menos não foi na Amazônia.


O ano era 1911, decidi inventar um paraquedas e pular de algum prédio ou alguma estrutura alta. Estava andando nas ruas de Paris, vi a Torre Eiffel e pensei: Por que não pular?


Peguei um monte de pano, costurei, costurei, bordei, fiz ponto cruz, vagonite, bordado russo, inglês, luneville, joguei uns glitters, enfeitei com rendas rosa bebê e no dia 4 de fevereiro de 1912 resolvi subir a Torre Eiffel e saltar com meu traje feito com 1.800 tecidos costurados uns aos outros.


Era um tecido leve a aerodinâmico. Pesava apenas 300 quilos. Tinham vários certificados de segurança e confiabilidade feitos por mim mesmo e várias premiações feitas pelo meu eu lírico.

Nada poderia dar errado. Já havia testado alguma vez? Não, mas se vocês deixarem eu pular e ainda filmarem isso, comprovarão que o homem nasceu para voar. Talvez eu ganhe um Oscar.


Todos pararam para assistir a minha grande façanha. Era hora de mostrar que o homem pode voar... Saltei, voei direto para o chão, mas que merd...

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... Olá caros leitores, aqui é o Jean, irmão mais velho do Franz. Venho por meio desta terminar o diário sobre as suas grandes invenções.

Sim, Franz morreu como todos viram. Passou até no cinema. Quero ressalvar aqui que Franz nunca errou na vida, a única vez que ele errou, ele morreu.


Ah, mas e o ioiô arremessado na cabeça da menina que morreu? Ué, ninguém mandou ela estar passando bem naquela hora.


Ah, mas e o canhão que explodiu e matou 200 pessoas?

Ué, o que aquelas 200 pessoas estavam fazendo lá? Ninguém mandou estarem na hora e lugar errado.


Ah, mas e quando ele furou o pulmão do seu pai com o ponteiro do relógio?

Ué, acidentes acontecem, quem nunca matou um pai com um ponteiro de relógio que atire a primeira pedra!

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..... Oi... aqui é Ada, a irmã mais nova do Franz e do Jean. Para quem não sabe, Jean foi morto a pedradas. Não sabia o motivo até começar a ler esse diário.

Não vou falar sobre invenções ou o que meus irmãos fizeram. Já que esse diário é meu agora, vou falar sobre mim.


Quarta-feira, dia 9 de outubro de 1912. Menstruei. Não sei como isso aconteceu, mas aconteceu. Como eu limpo? Uso panos? Sacos? Papel? Couro? Agua Raz? Óleo queimado?


Tem um garoto na minha rua, o François. Acho que estou afim dele. Vou tropeçar na frente dele pra ver se ele me pega.

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